10 de outubro de 2016

O sonho de um compositor

Amigos:
Outro dia, acordado sonhei que recebia um cheque nominal com a singela e insignificante importância de...  Pasmem os senhores! – Cr$ 318.010.000.000.000.000,00 (Trezentos e dezoito quatrilhões e dez trilhões de cruzeiros), junto com um recibo a ser assinado, onde constava que era referente a pagamento de direitos autorais.
– Direitos autorais... Direitos autorais? Alvíssaras! Vou passear a Europa toda até Paris. Até que enfim agora sou feliz (Feliz como um pinto no lixo, embora ainda não entenda como é que alguém pode, como um pinto, ficar feliz no lixo).
Continuei:
– Não vou mais trabalhar. Darei toda roupa velha aos pobres e a mobília sem quebrar. A patroa vai ter outra lua-de-mel, será madame e morar num grande hotel. Vou comprar um nome não sei onde de Marquês ou de Visconde. Dispensarei o francês mon amour e a Madame Pompadour. Não ficarei devendo nada ao Zé ninguém do armazém. E vou procurar saber onde comprar um avião azul para percorrer a América do Sul.
Assinei o recibo e coloquei a data depois de conferi-la devidamente no calendário pendurado na parede: 10 de outubro de 1966.
Exclamei:
– Ué!... Mil novecentos e sessenta e seis?!...
Mas de repente, derrepenguente, a patroa me acordou:
– Está na hora do meu batente. Assina o recibo que vou depositar o cheque.
Cai na real e assinei o dito cujo, conferindo a data no celular: 10 de outubro de 2016. Conferi o cheque: R$ 115,64 (Cento e quinze reais e sessenta e quatro centavos).
Pensei cá com minhas semicolcheias que se fosse possível possuir a maquininha de H.G.Wells após a conversão da moeda de hoje na de cinqüenta (com trema sempre) anos atrás... Se fosse possível...
– Se acorda, vargulino! Saia pela porta de trás que na frente tem gente.
Foi um sonho, minha gente!

Um compositor em seu uniforme de trabalho descansa...
sobre o resultado da arrecadação dos seus direitos autorais!...

26 de fevereiro de 2015

Viva a roupa nova do rei!

Sempre gostei de uma boa estória. Desde criança, gostava de ler e de ouvi-las e autores como Monteiro Lobato, Andersen, Dickens e outros faziam parte do meu cotidiano. As fábulas, historietas, contos e novelas me agradavam em cheio. Acompanhava-as também através da televisão. No meu tempo de criança, a televisão era feita ao vivo e havia diversos programas de teatro. Um deles, meu favorito, era o “Teatrinho Trol”, com peças infantis.
Uma das estórias que foi apresentada, e que logo me tornei admirador, foi uma adaptação do conto “A roupa nova do rei”, de autoria do dinamarquês Hans Christian Andersen.
Tenho a impressão que todos conhecem a trama. Se não, com licença do Andersen (!...), vou fazer um pequeno resumo do que se trata. Peço apenas que o leitor, em sua infinita bondade, perdoe minha falta de talento assumido para a literatura infantil, juvenil etc., etc.

Ilustração de Bertall para o conto A Roupa Nova do Rei
A coisa é mais ou menos assim.

Num reino, reino típico de estórias infantis, ou seja, sem uma clara localização geográfica, havia naturalmente um rei. Rei vaidoso e egoísta que só pensava em si mesmo e não nos interesses do reino e de seu povo (fato raro de se ver hoje em dia...). Pois bem, um dia, aparece perante ele um alfaiate, um alfaiate mágico, que se propõe a fazer-lhe gratuitamente uma roupa especial para que seja usada na festa mais importante do reino, na data tal e não importa qual.
O rei fica entusiasmado e, ao saber que nada pagaria pelo trabalho, aceita a oferta, feliz. O alfaiate, então, lhe apresenta um baú a qual chama de mágico, onde estão os tecidos com os quais ele fará a tal roupa. Porém, adverte ao monarca que somente os tolos não conseguiriam ver os tecidos, suas texturas e cores. Mas os sábios veriam e se deleitariam.
O alfaiate abre o baú e o rei, juntamente com os seus auxiliares, ministros e outros menos votados, ao olhar para dentro da caixa, afirmam imediatamente, sem vacilar, o quão lindo eram os tecidos, as texturas e as cores. E ficam entre si tecendo os mais elogiosos comentários.
Com o passar dos dias, a roupa é confeccionada. E são feitas várias provas com o próprio rei como modelo e todos os que veem o desenvolvimento do trabalho concordam que sua majestade ficará, sem dúvida alguma, elegantemente trajada.
No dia da festa, surge o rei vestido com sua nova roupa. Seus auxiliares diretos e ministros festejam exultantes. E ele, vaidoso, entra em sua carruagem real aberta para dar uma volta pelo seu reino e ser admirado pelo seu povo. Seus súditos sabiam desde o princípio da estória que somente os tolos não enxergariam a roupa e, então, ao verem o rei no seu coche, gritam entusiasmados:
- Que tecido, que textura, que cores! Viva a roupa nova do rei! Viva o rei!
E o rei, naturalmente, orgulhosíssimo.
Tudo vai correndo muito bem até que um menino, um menino bem pequeno, um tolo claro, meio que perdido no meio da multidão, ao ver o rei em seu novo traje, grita, revelando a todos o óbvio:
- Mas o rei está nu!
O final da estória, o leitor pode imaginar com facilidade.
Contei uma estória. Agora, se você me permitir, paciente leitor, contarei uma história.
Há alguns anos, estava exercendo o cargo de diretor da Divisão de Música do Instituto Municipal de Arte e Cultura - RIOARTE, órgão do governo municipal da cidade do Rio de Janeiro, hoje infelizmente extinto.
O setor que eu dirigia era responsável pela realização de concertos e recitais de música dita erudita e dita popular, e também por edições de partituras e discos. Num dos recitais que organizamos, tivemos a oportunidade de apresentar um conjunto de câmara oriundo de um país do norte da Europa que era especializado na chamada música contemporânea.
Por uma questão de ética, não citarei o nome do conjunto e nem o país, caro leitor. Perdoe-me mais uma vez.
O conjunto foi programado para o Espaço Cultural Sérgio Porto aqui no Rio de Janeiro. O Sérgio Porto era (não sei se ainda é) um local onde se realizavam eventos de todo tipo, sejam eles de música, de dança, teatro, poesia e também exposições de artes plásticas.
E programado para o único dia que dispúnhamos livre, uma segunda-feira. Dia ruim para eventos deste tipo.
Apesar de toda divulgação que fizemos, não conseguimos atrair ao teatro mais do que 20 pessoas.
O recital durou cerca de uma hora e meia e foi excelente, o grupo era muito bom. Eu, porém, estava um pouco envergonhado pelo pequeno público e pela reação fria ao trabalho deles. Já me preparava para tentar explicar aos membros do conjunto que o problema da segunda-feira quando, pela minha surpresa, percebi o entusiasmo dos integrantes do conjunto com a platéia presente. Eles estavam felicíssimos. Tinham adorado a reação do público e o “maravilhoso” (sic) número de pessoas que tinham assistido a apresentação.
- Geralmente, quando fazemos nossos recitais na Europa, temos um público de 4 a 6 pessoas. Já tocamos até para duas pessoas. E, além disso, o público é muito frio! - concluiu um dos músicos entusiasmado.
E eu que achara o nosso pequeno público frio...
Então, perguntei a eles por que o conjunto, que era muito bom, com excelentes músicos, continuava fazendo exclusivamente um só tipo de música, para tocar para públicos pequenos e frios:
- Não seria o caso de se ampliar o trabalho? –perguntei. Não falo de uma mudança radical, mas de um repertório mais abrangente de estilos e gêneros e assim alcançar um público maior e mais... quente?
A resposta, surpreendente para mim, pelo menos, foi dada por dos um dos integrantes do conjunto, com o aval de todos:
- A crítica não aceitaria mudanças.

Veja meu caro leitor, que tecido, que textura, que cores!

Viva a roupa nova do rei!

30 de março de 2013

ARGUMENTAÇÕES...

A TV, sempre a TV. A TV e sua história.

Era no antigo Cassino da Urca
O primeiro aparelho, chamado televisor, apareceu lá em casa em meados dos anos 50. Não sei se foi em 1956 ou 1957. Lembro-me apenas que foi comprado em segunda mão e funcionava à base de válvulas. Acho que a marca dele era SEMP. Depois, surgiram outros que, como o primeiro, esquentavam o suficiente para assustar, sendo que dois deles pegaram fogo, logo debelado, sem causar maiores problemas.

 Naqueles dias, os canais disponíveis eram dois: Tupi e Rio; 6 e 13. O cardápio de ofertas logo se ampliou com a vinda da Continental, canal 9; Excelsior, canal 2; Globo, canal 4.

TV-Rio (antigo Cassino Atlântico)
Ah, sim, veio também a Educativa. A TVE, como era conhecida, que, nos últimos tempos, deixou de ser Educativa para ser Brasil, e ocupa atualmente o canal 2. Sim, porque a Excelsior acabou cedendo gentilmente seu canal à emissora governamental. Acabaram também a Continental, a Tupi e a Manchete. Esta última, canal 6, surgiu tempos depois das anteriores, “pantaneou”, “donabeijou” e outras coisitas, mas cedo expirou, deixando o canal 6 para ser ocupado pela RedeTV!. Vieram ainda: o SBT, canal 11; a Bandeirantes, canal 7; a Record, canal 13, que vinha transformando a Rio e o Rio.

Quanto à Globo, permaneceu no canal 4.

A TV, sempre a TV. A TV e seus noticiários.

Meu pai era jornalista. Lia jornais, escutava noticiários de rádio – Repórter Esso e outros – e com a chegada da TV, assistia todos tele-noticiários. Assim, embora eu não seja jornalista e mal saiba escrever – nem sei por que estou escrevendo este texto – minha educação familiar acabou por incluí-los nos meus hábitos diários.

O teatro ficava em Ipanema
Agora mesmo, estou assistindo um deles que compõe a chamada imprensa televisada. Os tele-noticiários são britanicamente pontuais (Os britânicos são pontuais mesmo ou isto é puro papo?). E eles vêm. Atacam ferozes, exibindo delícias e horrores num mesmo prato, sem discriminar sabores e gostos pessoais. Neste ponto, não são muito diferentes dos tempos das válvulas. Os de agora são a cores e estão em múltiplos cenários.

Os noticiários têm mostrado, no meio de suas maravilhas, algumas das cenas, mais que freqüentes – todas dignas, claro –, das reuniões de um dos três poderes federais; o mais popular pela quantidade de vezes que, talvez devido às suas ações um pouco – como direi? – instigantes, é constantemente envolvido por manifestações diversas onde as palavras de ordem “fora fulano!” se reproduzem incessantemente. Essas reuniões, que não se sabe o porquê são estranhamente abertas ao público, vêm se tornando um dos melhores shows da televisão brasileira de todos os tempos. E olhem que tenho idade para julgar...

Os estúdios ficavam em Laranjeiras.
Acabei de assistir, com o prazer masoquista habitual, um destes últimos maviosos espetáculos que são as tais reuniões. E a coisa estava bastante animada! Podia-se ver dois grupos distintos. Um estava sentado, o outro de pé. Até aí nada. Porém, os dois grupos procuravam se expressar com gestos nada amistosos, movimentações corporais diversas e muita gritaria.

Da parte daqueles que estavam em pé, que pareciam – apenas pareciam – mais exaltados do que os acomodados em seus assentos, surgiu uma personagem exaltadíssima, que logo se tornou protagonista da cena, quando o pessoal da turma do “somos fortes e estamos à serviço da grande força” entrou em cena de forma nem tão coadjuvante assim, dando a esperada deixa para a fala da personagem aspirante. E esta não se fez de rogada e mandou ver, aos berros:


– “(Estão fazendo isso comigo porque...) Sou pobre, negro e guei!...”

Segue a cena – ainda não era o momento do fim, com mais gritos, empurrões e uns tabefes de leve, até que do meio daqueles que estavam sentados, outra personagem, também protagonista, numa cena cheia de personagens protagonistas em busca do autor (Cadê ele?!), aparece com a outra fala, sua fala, sem estabelecer necessariamente um diálogo, mas com a coerência necessária de alguma coisa próxima a um diálogo, onde pude continuar minha apreciação mais que masoquista – se é possível isso:

– “É preciso tomar medidas ÁUSTERAS!” (sic).

Pois é...

Mudei de canal de imediato. Está na hora de outro noticiário...

Cardápio atual da TV chamada de aberta


12 de março de 2013

IMPROVISO EM MÚSICA

Transcrevo aqui um breve papo que tive com uma amiga querida, Verinha Machado, com “prelúdio” e “finale” de outro querido amigo de longa data, Marcus Veras de Faria. A coisa começou quando postei de manhã, numa rede social, o vídeo abaixo, com o clássico de Dave Brubeck, seguido do comentário que abre o papo. Foi assim:


NHC: No jazz ou em qualquer outra forma musical com desenvolvimento semelhante, os “improvisos” são sempre variações sobre um tema qualquer. É a forma tradicional tema e variações, que vem de longa data. E os “improvisos” no jazz ou em qualquer outra forma musical semelhante são sempre... estudados!

Marcus Veras de Faria: Take Five é o exemplo perfeito para improvisos ensaiados...

NHC: Todos são ensaiados, Marcus. Mas, têm de ser bem feitos. De tal maneira que pareçam, de fato, serem “improvisos”...

Verinha Machado: Bom dia, Nestor! Não sei se estamos falando da mesma coisa, não sei o que você quer dizer com “temas ensaiados”, mas os músicos que conheço e com quem trabalho são pessoas que estudam muito, treinam bastante e não poderia ser diferente.Assim sendo conhecem a maioria dos temas mais conhecidos do jazz. Se é isso que você chama “tema ensaiado”, creio que não poderia ser diferente. Mas quando vão dar uma canja, por exemplo, não sabem nem quais temas vão ser tocados… Portanto não podem tê-los estudado antes e isso é que é o barato do jazz… improvisação pura… e diferente à cada vez.

Quando os temas são conhecidos ou quando são músicos que tocam em grupo há muito tempo os mesmos temas, muita coisa já foi experimentada, mas a cada vez os caminhos melódicos ou harmônicos escolhidos para o improviso são diferentes ( ao menos deveriam ser…). Mas é verdade que alguns músicos estudam seus improvisos com antecedência chegando a fazer os mesmos “improvisos” em todos os shows. Neste caso não se poderia mais falar em improviso, mas apenas em SOLO, que pode até mesmo ser escrito…

Num tema em 5/4 (como nos em 7/4),convenhamos que o improviso não seria muito “ natural”, necessitando de uma certa” intimidade prévia” com o mesmo. Assim, numa gravação, por exemplo, podemos ter certeza que o tema foi bem ensaiado, sim, mas se o solo não for escrito e sair espontaneamente, seria sempre um improviso… Todas as gravações às quais eu assisti, por exemplo, os solos eram verdadeiros improvisos, a tal ponto que, quando se faziam varias “tomadas”, nenhuma era igual à outra… Diferentemente da música clássica, onde a maioria dos solos são escritos…Estou errada ? Abraços musicais!!!

NHC: Verinha, você não está errada quando se fala do “improviso” por inteiro. Todo bom músico será capaz de fazer diversos e diferentes improvisos, uns dos outros, nas construções melódicas e também nas seqüências harmônicas, contanto que não “derrubem” os demais integrantes do grupo que estão tocando. É o que acontece quando os músicos não se conhecem bem e há uns “desencontros”, geralmente harmônicos e formais, que quem escuta não percebe de prima, quando os “caras” são bons. Porém, um músico que está na audiência, sempre percebe... O “ensaio” que falei não é este. Ensaios antes, existem, claro. A forma do todo tem de estar clara para todos. Senão, a percussão e o contrabaixo (Falo de um grupo básico de alguns instrumentos melódicos, como sax, clarineta, trompete, trombone, etc., e harmônicos, como teclados e guitarras em função harmônica, baixo com função básica de marcação, mesmo com variações, e bateria) vão ficar “caçando” o resto pra tentar se acertar...

Isto pode ser observado quando o baixista fica olhando para a mão esquerda do pianista e o baterista fica repetindo um modelo básico de toque, esperando uma mudança para variação. Nas músicas com compassos não convencionais, como 5/4 e 7/4, como você citou (Take Five e Missão Impossível, que estão em 5/4.), ou em compassos alternados (difícil para improvisos) todos têm de estar muito bem acertadinhos para “a casa não cair”; cair, não, despencar...

A forma da obra, por inteiro, tem de estar clara para todos.

Esta “forma” é, basicamente, nada mais, nada menos, do que o tema com variações ou doubles, da música chamada de “clássica”, “erudita” ou “de concerto”. O jazz é isto, sempre. Os precursores de tudo que estamos falando, músicos antigos, mui antigos, ficavam num órgão, cravo, etc., “improvisando” sobre temas dados pelos nobres que os patrocinavam; os seus patrões, em outras palavras... Mas, não é sobre a forma do todo que falei. É a respeito das células melódicas, construídas sobre escalas ou fragmentos de escalas nos acordes, em cada acorde (Escalas tonais, modais, hexatônicas, pentatônicas, etc.) nas melodias e os encadeamentos destes acordes. Os improvisos seguem modelos previamente estudados, individualmente. As saídas para cada acorde encadeado com outro acorde são “preparadas”, “estudadas”, “ensaiadas” por cada um, quando desenvolvem seus estilos pessoais. Tudo isso, claro, antes dos músicos se juntarem uns aos outros, para se conhecerem (E para ver se dão certo entre si). E todos, seguem diversos modelos, inclusive modelos “clássicos de improviso” de jazz ou outros modelos. Foi disso que falei, amiga. Os “improvisos” não são assim tão “espontâneos”, são sempre, sempre mesmo, estudados.

Marcus Veras de Faria: Nestor e Verinha, este papo de vocês dois enche minh’alma de uma profunda e verdadeira alegria. Obrigado!!!

- §§§ -

Obrigado a vocês, meus queridos amigos. Aliás, Verinha e Marcus, estava pensando em escrever no meu blog sobre "improviso" e, por pura preguiça (Ah, Macunaima!...), não fiz. Alguns amigos haviam pedido e o degas aqui... nada. Com a “provocação” de vocês, vou dizer assim, o texto saiu.

Beijos musicais pros dois (O que é um "beijo musical"? Improviso, claro...).